Guta Moura Guedes, Presidente da “Experimentadesign”
A Comunicação, o Inglês e o Design são competências fundamentais do século XXI
É uma referência maior do Design e da criatividade
com chancela «made in Portugal». Chama-se Guta Moura Guedes e
defende que o «redesenho» do país passa por combinar Educação e
Cultura, não desperdiçar talentos e potenciar as capacidades
criativas nacionais.
A 7 de
novembro é inaugurada a "Experimentadesign" 2013, em Lisboa. Que
expectativas e novidades podemos esperar para esta edição?
Esta será uma "Experimenta" sob o
signo da mudança. Eventualmente, não será percetível para o
público, mas para nós, seus autores e mentores, ela existe. Lisboa
continua a ser a base do evento, mas temos novos formatos e novos
modos de desenvolvimento de conteúdos, que se diferenciam de
bienais anteriores. O tema, «No Borders» (Sem Fronteiras), é o fio
condutor de todo o evento, mas vai passar para o ano a seguir.
Depois da primeira edição que fizemos no estrangeiro, em 2008, em
Amsterdão, no próximo ano será dado o salto para o outro lado do
Atlântico, mais concretamente para a cidade de São Paulo. Por
vários motivos, mas também porque queremos reforçar que o Design
pode ser um instrumento de ligação entre Portugal e o Brasil de uma
forma útil para ambos os lados.
Como
espera que o público português responda a este repto?
A "Experimenta" tem um público que
é muito amplo e muito diverso. Temos gente mais e menos jovem, mais
e menos conservadora, uns mais ligados a temas relacionados com a
cultura, outras das áreas económicas. Mas apesar da
heterogeneidade, há sempre algo muito forte que os une que é a
exigência que têm relativamente ao que consomem. É um público
informado e sedento de boa informação. Que tem sempre respondido
aos nossos reptos e lançado ainda maiores desafios.
Gostaria de
destacar algo que considere mais impactante no programa de mês e
meio de atividades?
É difícil. A "Experimenta" deve ser
vista de forma global, como um todo. Mas talvez possa sublinhar a
componente internacional muito forte que está associada a esta
edição, isto apesar de reforçar que Lisboa é o epicentro desta
mostra como espaço de discussão cosmopolita e global. Desta vez
apostámos mais em espaços vocacionados para o debate alargado e
menos nas conferências «a solo» de convidados internacionais, por
exemplo. Estou em crer que este ano vai reforçar o papel da
"Experimenta" como plataforma de reflexão e investigação.
«O Design é
muito mais do que os objetos», é uma frase da sua autoria. O
que o Design pode fazer pelas nossas vidas?
O Design é uma disciplina que
funciona como uma espécie de caixa de ferramenta que pode ser
utilizada por muita gente, providenciando respostas para facilitar
a vida às pessoas. Por ser uma disciplina centrada no ser humano
abarca uma amplitude de campos de conhecimento que vão desde a
dimensão económica, cultural, ética, simbólica, estética e
comunicacional, entre outras. O Design serve para melhorar a nossa
qualidade de vida através da produção de artefactos e sistemas
diversos. E está em todo o lado.
Retive uma
frase que uma vez proferiu: «Fui desenhada para ser feliz».
Consegue fruir esse sentimento na plenitude na vida pessoal e
profissional ou, como referia David Mourão Ferreira, «não somos
sempre felizes, temos é momentos de felicidade»?
Acho que tenho, de um modo geral, uma propensão para
a felicidade e para o otimismo. É assim que me sinto e me conheço.
Estou em crer que isso tenha acontecido talvez por uma combinação
de elementos de ordem genética, que ;
foram reforçados pela minha educação. Aos 48 anos, tenho uma vida
muito cheia, entusiasmante, uma família extraordinária e a
felicidade para mim continua a ser mais a regra do que a exceção. E
eu dedico-me a que assim seja com todas as forças que tenho, todos
os minutos da minha vida.
Define-se
como uma otimista, proativa, com uma energia criativa sem limites.
À primeira vista é tudo aquilo que o português-tipo não é,
normalmente associado a um perfil pessimista e esmorecendo à
primeira contrariedade. Estas características estão no nosso ADN,
como agora se diz?
Não estou de acordo. A minha
experiência de trabalho em Portugal tem provado o contrário. Tendo
a congregar pessoas com múltiplas características e proveniências,
de carácter forte, entusiastas e que não são de todo pessimistas e
negativas. E que lutam. Não acho que o ADN nacional seja
pessimista. Mas, mesmo que fosse, não esqueçamos que o nosso ADN é
evolutivo, ao contrário do que se pensava há uns anos atrás...
Portugal
não é o espelho dos seus concidadãos?
O Portugal que vemos agora continua
a não refletir o valor das suas pessoas. O grande problema do país
é ser demasiadas vezes mal gerido e não se rentabilizarem as
capacidades e talentos dos recursos humanos nacionais, nas mais
diversas áreas de atividade. Existe, desde há muito, um problema
claro de gestão e de planeamento e de rentabilização de
potencialidades no nosso país. E muitos egos.
Em que
indústrias criativas pode Portugal destacar-se?
O país tem capacidades criativas
várias e estas expressam-se em muitas áreas, seja na comunicação,
no cinema, na literatura, nas artes gráficas e, claro, no design e
na arquitetura. As nossas escolas formam bons profissionais, o que
talvez falte é saber aplicar a criatividade em territórios mais
tradicionais, por um lado, e, por outro, no desenvolvimento de
novas áreas de produção. O talento existe, e em grande escala, só
que está a ser desperdiçado.
A
empregabilidade no setor do Design e da Arquitetura está em
risco?
Temos vindo a formar, de um modo
crescente, muita gente em arquitetura, artes, cinema, new media e
design, cursos com uma componente criativa muito forte. O que falta
fazer é procurar encaixar essas pessoas em novas atividades, no
caso de se verificar um esgotamento do mercado de trabalho no seu
formato mais clássico e que se prova agora incapaz de absorver mais
recursos humanos. Veja, as competências da comunidade criativa
podem ser aplicadas em situações muito diversas, seja em hospitais,
câmaras municipais ou em fábricas, só para citar alguns exemplos.
Temos potencial para somar elementos criativos, tornando
instituições, empresas e indústrias mais competitivas e inovadoras.
Basta para tal existir vontade política e ter visão,
consubstanciadas numa estratégia arrojada, global e inovadora, que
integre também os movimentos vindos da sociedade civil.
Disse,
quando havia Ministério da Cultura, que este tinha meios próprios
de uma «fraca» secretaria de Estado. Agora nem ministério temos e
as verbas destinadas são irrisórias. Este setor continua a ser
menosprezado simplesmente porque não dá votos?
Discordo. Eu acho que a Cultura dá
votos. Mas é a médio prazo, claro. Os eleitores cultos,
esclarecidos e bem formados têm de ser fortemente desejados
enquanto eleitores porque são determinantes para a construção de
uma sociedade melhor. Os políticos já sabem isto. Sobre a questão
relativamente a ter um Ministério ou uma secretaria de Estado, eu
acho que a nomenclatura não é importante. O que é determinante são
as decisões que se tomam, as pessoas que aceitam os cargos - e os
fazem - e os orçamentos e meios de que dispõem. Nesta matéria tenho
ideias claras, que já expressei publicamente: acho que a Cultura
deve ser, antes de tudo, um dossiê estratégico do
Primeiro-Ministro. Seria um sinal muito importante. A Cultura é,
por natureza, transversal a todos os ministérios e tem um potencial
extraordinário para ser explorado em termos estratégicos,
estruturantes e de desenvolvimento dos países. Infelizmente, e não
é só em Portugal, a cultura e a criatividade teimam em não ser
entendidas nesta perspetiva de valor estratégico sustentável,
absolutamente basilares no desenvolvimento económico e social.
«Redesenho»
é um termo que usa frequentemente, necessariamente por «deformação»
profissional. Se pudesse redesenhar o país a partir de uma
folha em branco, como seria o seu Portugal ideal?
O meu Portugal ideal teria de respeitar uma linha
estratégica de desenvolvimento no domínio cultural, rentabilizando
as mais valias do passado e projetando outras, de origem
contemporânea, ambas voltadas para o futuro. A equação do Portugal
ideal teria de passar pela conjugação dos seguintes vértices: a
cultura, como é óbvio; o mar e o nosso espaço marítimo, como valor
económico ímpar, conjugando todo o potencial simbólico que também
tem; a criação de redes, domínio em que os portugueses sempre foram
exemplares e, finalmente, o aproveitamento da nossa posição
geoestratégica no âmbito da plataforma europeia e a nossa
interlocução atlântica e com o oriente.
Entrando
agora no domínio do ensino. De forma sintética, e faço-lhe o mesmo
desafio que lhe lancei para o país, como redesenharia o sistema
educativo português, do básico, ao secundário, terminando nas
universidades?
É um território muito complexo,
onde é fácil fazer críticas. É sabido que a própria estrutura do
Ministério da Educação e do Ensino Superior é enorme, pesada,
complexa e onde não é fácil mudar do dia para a noite. Alterar o
sistema de ensino, aqui ou noutro país, é uma tarefa exigente e
difícil. O «redesenho» do sistema de ensino só pode acontecer se
tivermos tempo para raciocínio e para reflexão, congregando
múltiplos interlocutores e os contributos de vários players,
partilhando opiniões e pontos de vista plurais. Não fujo à sua
questão, apenas lhe digo que este é um tema que me apaixona e que
sinto que precisa de ser, ainda, muito discutido e analisado, de
modo coletivo, dada a sua importância.
A Cultura e
a Educação deviam encurtar o fosso que ainda as separa?
Há um longo caminho a percorrer
para tornar mais sólido o binómio Cultura e Educação. Sei que o
sistema de ensino não privilegia as áreas ligadas à estética, artes
e cultura. Não quero com isto dizer que o sistema português
forma maus profissionais. Longe disso. Mas acho que formamos
recursos humanos incompletos e demasiadamente especializados, a
maior parte das vezes. No entanto, nas áreas de competência em que
são formados, os nossos alunos em nada ficam a dever em comparação
com estrangeiros oriundos de outros sistemas de ensino.
Defende
como disciplinas curriculares nucleares a Comunicação, o Inglês e o
Design. Que competências fundamentais é que estas valências dariam
aos alunos?
A Comunicação, o Inglês e o Design
são competências fundamentais do século XXI. Vamos por partes. A
Comunicação é um handicap para muitos. Não pode ser bom a fazer e
mau a comunicar. E comunicar bem é algo que se aprende. ;
Quanto ao Inglês, é a língua global, quer queiramos, quer não. Não
saber expressar-se fluentemente neste idioma é impensável.
Finalmente, o Design, por ser uma disciplina que ensina a resolver
problemas de uma forma sustentada e que pode ser utilizada
por qualquer pessoa. Eu não desisto de acalentar o sonho que um dia
o Design seja disciplina obrigatória para os alunos do primeiro
ciclo. Seria uma decisão arrojada, aqui ou noutro país, mas que
poderia ter um impacto profundamente positivo nas gerações
vindouras e no desenvolvimento da espécie humana.
Qual seria
a mais valia do Design junto dos mais pequenos?
É preferível ensinar a desenvolver
ferramentas, ao invés de dar soluções. Dar a cana e ensinar a
pescar, como dizem na sabedoria oriental. Esta é uma disciplina
muito útil nesse sentido, centrada nas pessoas e na utilização dos
recursos e que contribuiria para gerar sociedades mais sustentadas,
corretas e saudáveis.
Tem dois
filhos, um com 22 anos e outro com 18. Presumo que um em idade
universitária e outro quase lá ou a iniciar-se no ensino superior.
Que conselhos e incentivos nucleares deu e continua a dar como mãe
ao longo do seu percurso académico?
Os meus dois filhos são muito
diferentes. O mais velho, seguiu o ensino mais tradicional, está
agora em Budapeste a terminar o curso de economia. O mais novo é o
protótipo de uma geração que não se enquadra no nosso sistema de
ensino tradicional, o que obrigou a um esforço redobrado por parte
dos pais, dele próprio e dos educadores, de forma a aproximá-lo da
escola que temos disponível. A grande lição que se aprende em
educar e que posso partilhar com outros pais é que as pessoas são
todas realmente diferentes e não há fórmulas simples. É preciso
orientar, flexibilizar, entender e não forçar caminhos que
não refletem a natureza dos nossos filhos. Fazê-lo é completamente
errado. A escolha dos caminhos educativos é legítima e, às vezes, é
preciso tempo para decidir e tempo para descobrir o que faz mais
sentido. O conselho que lhes dou mais frequentemente é ouvir muito
bem nas aulas, ter imenso respeito pelas pessoas mais velhas e que
sabem mais do que eles, mas ter dúvidas construtivas em relação a
tudo. A dúvida é um alavancador do estudo e do conhecimento.
Depreendo
que o seu filho mais novo é mais parecido consigo na queda para as
artes…
Aparentemente sim, mas sabe, que eu
própria até aos 25 anos fui claramente mais científica e racional e
só depois é que abordei em maior profundidade as questões estéticas
e culturais. Eles são muito diferentes, mas há um ponto que ambos
têm em comum: a criatividade e a cultura estão na matriz deles para
o resto da vida. E esta ligação à cultura, que devia ser extensível
a todo os nossos jovens, é um pilar de sustentabilidade nosso,
enquanto espécie.
Vai participar, no próximo ano, no 3.º congresso internacional das
Cidades Educativas, que se realizará em Barcelona.
O que é
para si o modelo de uma cidade que consiga fazer coexistir
educação, cidadania e inclusão?
Para já essa cidade não existe,
talvez só na teoria. Combinar de forma harmoniosa essa trilogia é
um grande desafio para todos os países do mundo e não só para
Portugal. Globalmente, as cidades são bastante disfuncionais, mas
acabam por ser os nossos espaços vivenciais de eleição. Esta
discussão é de importância fundamental. Acredito mesmo que a
questão das «cidades educativas» será "o" tema que vai dominar as
próximas décadas.