Editorial
As trapalhadas do ME e o futuro da Escola
Onde está o futuro da Escola? Está nas
pseudo políticas educativas deste Ministério da Educação? Para mal
(ou para bem?) dos professores, dos aprendentes, dos pais e do
país, não está. Desta equipa não se vislumbra um rasgo de
desenvolvimento do sistema educativo. Todas as medidas anunciadas,
rapidamente se transformam numa embrulhada que ninguém quer
assumir, mas todas elas convergem numa estreita visão economicista
e neoliberal do desenvolvimento da educação e da cultura, com
gravíssimas repercussões para o futuro deste país, enquanto nação
soberana, democrática e desenvolvida.
Onde está então o futuro da nossa
escola?
A nosso ver está nos jovens, nas
crianças e nos pais que todos os dias a procuram; na população
adulta que quer saber mais; nos desajustados que desejam ser
reconvertidos; nos arrependidos que cobiçam reiniciar um novo ciclo
da sua vida; nos que não tiveram oportunidade (porque a vida também
sabe ser madrasta) e agora buscam o alimento do sucesso; na
sociedade e no Estado que já não sabem (e não podem…) viver sem ela
e, sobretudo, pressente-se nos professores e educadores que são a
alma, o sal e o sangue de que se faz todos os dias essa grande
construção colectiva.
A Escola é uma organização muito
complexa…É paixão e movimento perpétuo. É atracção e remorso. É
liberdade e prisão de sentimentos contraditórios. É mescla de
angústias e espontâneas euforias. É confluência e rejeição. É
orgulho e acanhamento. É todos e ninguém. É nome e chamamento. É
hoje um dar e amanhã um rogar. É promoção e igualdade. É mérito e
inveja. É jogo e trabalho. É esforço, suor e emancipação. É
convicção e espontaneidade. É responsabilidade e comprometimento
com todos os futuros. É passado e é presente. É a chave que abre
todas as portas das oportunidades perdidas. É acolhimento,
aconchego, colo e terapia. É a estrada do êxito, mas também um
percurso inacabado, que nos obriga a voltar lá sempre, num fluxo de
eterno retorno.
Porém, também acontece muitas vezes
ser o pião das nicas, o bombo da festa, o bode expiatório, sempre e
quando aos governos dá o jeito, ou lhes apetece, como acontece com
a actual equipa do ME.
Sobre a Escola, há governantes que
aprenderam a mentir: sabem que ainda não foi inventada qualquer
instituição que a possa substituir. Sabem ainda que os professores
são os grandes construtores de todos os amanhãs. E, por isso, têm
medo. Medo, porque a Escola é das poucas organizações que todos os
governantes conhecem bem. Habituaram-se a observá-la por dentro,
desde a mais tenra idade. E, por essa razão, sabem-lhe o poder e a
fatalidade de não ser dispensável, silenciável, transferível,
aposentável, exonerável ou extinguível.
Então, dizíamos, dela têm medo e,
sobre ela, mentem.
Mentem sobre a Escola e sobre os
professores. Todos os dias lhes exigem mais e dizem que fazem
menos, e (eles também o sabem…) não é verdade.
Em relação à Escola e aos
professores, a toda a hora o Estado, a sociedade e as famílias se
descartam e para ela passam cada vez mais responsabilidades que não
são capazes de cumprir e de assumir.
Hoje, a Escola obriga-se a prevenir
a toxicodependência, a educar para a cidadania, a formar para o
empreendedorismo, a promover uma cultura ecológica e de defesa do
meio ambiente, a motivar para a prevenção rodoviária, a transmitir
princípios de educação sexual, a desenvolver hábitos alimentares
saudáveis, a prevenir a Sida e outras doenças sexualmente
transmissíveis, a utilizar as novas tecnologias da comunicação e da
informação, a combater a violência, o racismo e o belicismo, a
reconhecer as vantagens do multiculturalismo, a impregnar os jovens
de valores socialmente relevantes, a prepará-los para enfrentarem
com sucesso a globalização e a sociedade do conhecimento, e sabe-se
lá mais o quê…
Acham pouco? Então tentem fazer
mais e melhor… E, sobretudo, não coloquem a auto estima dos
professores na altitude zero, com a sistemática ameaça de um
desemprego que é fictício e foi administrativamente provocado, em
nome de um deficit que, em vez de descer, todos os meses sobe.
É que não há Escola contra a
Escola. Não há progresso que se trilhe contra os profissionais da
educação. Não há políticas educativas sérias a gosto de birras e
conjunturas que alimentam os pseudo protagonismos de alguns
governantes. Não há medidas que tenham futuro se não galvanizarem
na sua aplicação os principais agentes das mudanças educativas: os
educadores e os professores.
O futuro da Escola está para lá das
pequenas mediocridades, e dos medíocres com tiques de sobranceria e
ignorância confrangedora.
A Escola, tal como a conhecemos,
não é um bem descartável, de uso tópico, a gosto de modas e
conjunturais conveniências financeiras e orçamentais.
A Escola vale muito mais que tudo
isso. Vale bem mais do que aqueles que a atacam. Vale por mérito,
por serviço ininterruptamente prestado, socialmente avaliado e
geracionalmente validado.