Primeira Coluna
A crise que a crise cria
Os cortes anunciados para o setor
educativo em Portugal voltam a colocar a escola pública e o ensino
superior na ordem do dia. O Orçamento de Estado para 2014 traz mais
austeridade, mais intranquilidade e, sobretudo, mais
insensibilidade perante aquilo que deve ser o acesso ao saber de
todos os portugueses.
A situação não é nova e o país
continua, apesar de tantos cortes, com a corda na garganta. A
diminuição dos vencimentos dos salários da função pública, que
gradualmente se está a generalizar ao privado, o aumento dos
impostos, a carga fiscal sobre as empresas e os contribuintes, etc,
parecem não ser suficiente. A título de exemplo, refira-se que o
valor reduzido nos vencimentos nas câmaras municipais em vez de ir
para uma conta de pagamento de dívida do próprio Estado fica... nas
contas das autarquias. Resultado, se a gestão autárquica for boa,
as contas dos municípios aumentam, mas o défice do país não
diminui. Se as gestões forem desastrosas (e há muitas por aí, que
até obrigaram a intervenções superiores) esse dinheiro é gasto à
tripa forra e ficamos sem dinheiro e com mais dívida.
Estamos perante uma situação que
exigia mais rigor, mais tempo e um pouco mais de compreensão para
com o povo português. Um povo que deve ver garantido o serviço
público em muitas áreas, como a educação. Este ano milhares de
alunos do ensino secundário optaram por não se candidatar ao ensino
superior. Podem existir muitas razões, mas a falta de poder
económico das famílias e o conselho do próprio governo aos jovens
para que estes emigrem, como que a dizer que em Portugal não há
futuro, têm influência.
A crise que o país está a viver
cria, por isso, uma nova crise, a de valores. Dos valores éticos,
da verdade, do orgulho e de trabalho. Ao massacre com que a maioria
dos portugueses tem sido bombardeada, junta-se as peripécias
políticas, a sede de poder e a insistente máxima, que qualquer dia
vira provérbio, e que nos diz que os portugueses gastaram mais que
as suas possibilidades.
E a escola pública, como está,
perante tudo isto?, perguntam. Vai resistindo devido à resiliência
de professores e funcionários que, como sempre, procuram ensinar
(os primeiros) e zelar pela escola e pelo seu bom funcionamento. É
assim, mesmo quando ouvem notícias sobre despedimentos, mobilidade,
redução de vencimentos, e outras coisas que tais...