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Director Fundador: João Ruivo Director: João Carrega Ano XXI Nº248  Outubro 2018
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Entrevista

Rui Massena, maestro e compositor
«O ensino artístico é necessário aos valores básicos de uma sociedade»

Conhecido do grande público como maestro, Rui Massena lança o seu primeiro álbum enquanto pianista e compositor e apresenta-o em abril aos públicos de Lisboa e Porto. Massena fala do país e da Europa, do que é ser português fora de portas, do ensino artístico e das poucas oportunidades que são dadas aos artistas e criativos nacionais, sem esquecer o «seu» FC Porto…

Estreia brevemente o disco «Solo» perante o público de Lisboa e do Porto. O que é que se pode esperar destes espetáculos em dois palcos de grande impacto e simbolismo, o CCB e a Casa da Música?

Sim. A 16 de abril na Casa da Música e a 19 de abril no CCB, vou tocar o meu disco «Solo», no respetivo ambiente de serenidade e, vou apresentar mais uma série de novas canções, juntamente com um Ensemble que estou a criar.

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Diz que «tinha de fazer a minha música porque precisava de ser feliz». Considera ser esta a sua emancipação artística e uma nova dimensão da sua carreira?

Ouvir os meus impulsos para a composição era fundamental. É uma emancipação porque em vez de estar ao serviço do compositor, estou a dizer as minhas palavras. Essa é a diferença na função. Maestro e compositor.

Abandona a batuta e concentra-se no piano num registo solitário. «Dia D» é o primeiro single, mas o segundo single «Família», é das que mais fica no ouvido, transmitindo grande harmonia e intensidade. É uma espécie de homenagem e celebração dos seus entes mais queridos?

É uma celebração das memórias. A melancolia pode ser muito confortável. E claro, somos o que vivemos. A batuta é um símbolo da minha formação. Nunca a vou poder abandonar. Adoro a música feita com pessoas.

Gravou e apresentou o disco na Casa da Cultura de Alfândega da Fé, em Trás-os-Montes. Foi coincidência ou tratou-se de uma mensagem intencional de recusar o abandono a que está a ser votado o interior do país?

Gosto da paisagem de Trás-os-Montes e das gentes. Achei que me poderiam dar a tranquilidade e o retiro necessário à ravação do meu CD. Para que em cada nota estivesse essa calma. E claro, tanto se pode fazer um bom trabalho em Alfandega da Fé ou em Nova Iorque.

O seu cabelo em pé é uma imagem de marca que lhe dá um ar excêntrico e contrasta com o aspeto aprumado e irrepreensível dos outros maestros. Num país onde, muitas vezes, se pega pela espuma e pelo irrelevante, esse preconceito já foi ultrapassado e é a sua música e o seu talento que prevalecem?

Sou rigoroso no meu trabalho e esse é que fala por mim. Já tenho caminho suficiente para o ter provado. A minha imagem é ao meu gosto e não dependo dela para viver. Se alguém acha que um médico por ter tatuagens é menos competente, é um problema dessa pessoa.

Mário Laginha disse de si que «é um dos poucos maestros que não tem medo de arriscar». Revê-se nesta análise que o seu ado audaz lhe tem dado grandes conquistas?

O Mário Laginha é um músico que admiro muito.Na verdade, tenho medo de arriscar mas esse medo não me impede de o fazer. Custa, mas compensa.

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Veem-me à cabeça três nomes de maestros: o venezuelano Dudamel, o argentino Barenboim e a sua compatriota, Joana Carneiro. Tem pontos de contacto e afinidades e referências com alguns dos nomes mencionados?

Todos bebemos uns dos outros. Admiro qualquer um dos brilhantes profissionais que referiu.

Um dos momentos mais relembrados da sua carreira foi o concerto final que fez com os Expensive Soul, no âmbito de Guimarães Capital da Cultura 2012. São manifestações desse carácter, arrojadas e improváveis, que ficam na memória coletiva das sociedades?

Vivemos num país, numa Europa cheia de receios. As sociedades estão revoltadas e estão no limiar da sobrevivência. As pessoas, que têm contas para pagar, têm medo de arriscar e ficarem sem nada. E isso é muito ingrato para se arriscar. Mas no geral, as sociedades precisam desses rasgos para se reverem.

Depois de ter sido júri na «Operação Triunfo», ocupa agora igual função no «Got Talent Portugal». Como se sente na missão de avaliar novos valores?

Comunicar é uma necessidade que tenho. Gosto de ajudar a construir a minha sociedade em vez de a criticar. Tento ser pedagógico para que cada talento sinta que valeu a pena ter vindo.

O «Got talent» bateu o «Desafio final» da TVI, num dos últimos domingos. Significa que na guerra das audiências sopram novos ventos?

A mim o que me importa é que com o esforço de nós todos, tenhamos uma sociedade mais plural, inclusiva e com menos preconceitos.

É sabido que a cultura é um parente pobre nacional. O ensino artístico, nomeadamente da música e das artes, tem visto diminuir os apoios e as verbas. A cultura e o talento continuam a ser valores negligenciados?

O ensino artístico é absolutamente necessário aos valores básicos de uma sociedade. Temos que lutar para que esse espaço seja aumentado. Mas também parte de nós. Não nos podemos fechar e criticar quem mostra aos outros a importância das artes. E o meio artístico é às vezes muito pouco compreensivo com a ideia de que é preciso envolver a comunidade.

O mercado de trabalho está pensado e desenhado para aproveitar em diversos domínios os recursos humanos que saem do ensino artístico?

Não. Lamentavelmente, os nossos criativos e artistas não têm lugar a oportunidades nas casas de programação que, inclusivamente, são subsidiadas por todos nós.

Passou por diversas orquestras do mundo, nomeadamente em Roma e Nova Iorque. Como é que Portugal e os portugueses são encarados fora de portas?

Bem. Nunca me senti ostracizado por ser português. Julgo que autores como Saramago ou Lobo Antunes, treinadores portugueses e futebolistas, músicos como a Maria João Pires ou artistas como Paula Rego, a par de uma nova geração de emigração brilhante nas suas competências, fazem ou fizeram de um Portugal com pequeno território, um País considerado e admirado. Há sempre mais para fazer.

O FC Porto é, para além da música, o seu outro grande amor. Lopetegui vai conseguir roubar o campeonato a Jesus ou será mais um ano sem títulos no Dragão?

Prognósticos só no fim do jogo... Gosto deste Porto e como bom adepto, acredito até ao fim do jogo!

Nuno Dias da Silva
Jornalista