Rui Massena, maestro e compositor
«O ensino artístico é necessário aos valores básicos de uma sociedade»
Conhecido do grande público como
maestro, Rui Massena lança o seu primeiro álbum enquanto pianista e
compositor e apresenta-o em abril aos públicos de Lisboa e Porto.
Massena fala do país e da Europa, do que é ser português fora de
portas, do ensino artístico e das poucas oportunidades que são
dadas aos artistas e criativos nacionais, sem esquecer o «seu» FC
Porto…
Estreia
brevemente o disco «Solo» perante o público de Lisboa e do Porto. O
que é que se pode esperar destes espetáculos em dois palcos de
grande impacto e simbolismo, o CCB e a Casa da Música?
Sim. A 16 de abril na Casa da
Música e a 19 de abril no CCB, vou tocar o meu disco «Solo», no
respetivo ambiente de serenidade e, vou apresentar mais uma série
de novas canções, juntamente com um Ensemble que estou a criar.

Diz que
«tinha de fazer a minha música porque precisava de ser feliz».
Considera ser esta a sua emancipação artística e uma nova dimensão
da sua carreira?
Ouvir os meus impulsos para a
composição era fundamental. É uma emancipação porque em vez de
estar ao serviço do compositor, estou a dizer as minhas palavras.
Essa é a diferença na função. Maestro e compositor.
Abandona a
batuta e concentra-se no piano num registo solitário. «Dia D» é o
primeiro single, mas o segundo single «Família», é das que mais
fica no ouvido, transmitindo grande harmonia e intensidade. É uma
espécie de homenagem e celebração dos seus entes mais queridos?
É uma celebração das memórias. A
melancolia pode ser muito confortável. E claro, somos o que
vivemos. A batuta é um símbolo da minha formação. Nunca a vou poder
abandonar. Adoro a música feita com pessoas.
Gravou e
apresentou o disco na Casa da Cultura de Alfândega da Fé, em
Trás-os-Montes. Foi coincidência ou tratou-se de uma mensagem
intencional de recusar o abandono a que está a ser votado o
interior do país?
Gosto da paisagem de Trás-os-Montes
e das gentes. Achei que me poderiam dar a tranquilidade e o retiro
necessário à ravação do meu CD. Para que em cada nota estivesse
essa calma. E claro, tanto se pode fazer um bom trabalho em
Alfandega da Fé ou em Nova Iorque.
O seu
cabelo em pé é uma imagem de marca que lhe dá um ar excêntrico e
contrasta com o aspeto aprumado e irrepreensível dos outros
maestros. Num país onde, muitas vezes, se pega pela espuma e pelo
irrelevante, esse preconceito já foi ultrapassado e é a sua música
e o seu talento que prevalecem?
Sou rigoroso no meu trabalho e esse
é que fala por mim. Já tenho caminho suficiente para o ter provado.
A minha imagem é ao meu gosto e não dependo dela para viver. Se
alguém acha que um médico por ter tatuagens é menos competente, é
um problema dessa pessoa.
Mário
Laginha disse de si que «é um dos poucos maestros que não tem medo
de arriscar». Revê-se nesta análise que o seu ado audaz lhe tem
dado grandes conquistas?
O Mário Laginha é um músico que
admiro muito.Na verdade, tenho medo de arriscar mas esse medo não
me impede de o fazer. Custa, mas compensa.

Veem-me à
cabeça três nomes de maestros: o venezuelano Dudamel, o argentino
Barenboim e a sua compatriota, Joana Carneiro. Tem pontos de
contacto e afinidades e referências com alguns dos nomes
mencionados?
Todos bebemos uns dos outros.
Admiro qualquer um dos brilhantes profissionais que referiu.
Um dos
momentos mais relembrados da sua carreira foi o concerto final que
fez com os Expensive Soul, no âmbito de Guimarães Capital da
Cultura 2012. São manifestações desse carácter, arrojadas e
improváveis, que ficam na memória coletiva das sociedades?
Vivemos num país, numa Europa cheia
de receios. As sociedades estão revoltadas e estão no limiar da
sobrevivência. As pessoas, que têm contas para pagar, têm medo de
arriscar e ficarem sem nada. E isso é muito ingrato para se
arriscar. Mas no geral, as sociedades precisam desses rasgos para
se reverem.
Depois de
ter sido júri na «Operação Triunfo», ocupa agora igual função no
«Got Talent Portugal». Como se sente na missão de avaliar novos
valores?
Comunicar é uma necessidade que
tenho. Gosto de ajudar a construir a minha sociedade em vez de a
criticar. Tento ser pedagógico para que cada talento sinta que
valeu a pena ter vindo.
O «Got
talent» bateu o «Desafio final» da TVI, num dos últimos domingos.
Significa que na guerra das audiências sopram novos ventos?
A mim o que me importa é que com o
esforço de nós todos, tenhamos uma sociedade mais plural, inclusiva
e com menos preconceitos.
É sabido
que a cultura é um parente pobre nacional. O ensino artístico,
nomeadamente da música e das artes, tem visto diminuir os apoios e
as verbas. A cultura e o talento continuam a ser valores
negligenciados?
O ensino artístico é absolutamente
necessário aos valores básicos de uma sociedade. Temos que lutar
para que esse espaço seja aumentado. Mas também parte de nós. Não
nos podemos fechar e criticar quem mostra aos outros a importância
das artes. E o meio artístico é às vezes muito pouco compreensivo
com a ideia de que é preciso envolver a comunidade.
O mercado
de trabalho está pensado e desenhado para aproveitar em diversos
domínios os recursos humanos que saem do ensino artístico?
Não. Lamentavelmente, os nossos
criativos e artistas não têm lugar a oportunidades nas casas de
programação que, inclusivamente, são subsidiadas por todos nós.
Passou por
diversas orquestras do mundo, nomeadamente em Roma e Nova Iorque.
Como é que Portugal e os portugueses são encarados fora de
portas?
Bem. Nunca me senti ostracizado por
ser português. Julgo que autores como Saramago ou Lobo Antunes,
treinadores portugueses e futebolistas, músicos como a Maria João
Pires ou artistas como Paula Rego, a par de uma nova geração de
emigração brilhante nas suas competências, fazem ou fizeram de um
Portugal com pequeno território, um País considerado e admirado. Há
sempre mais para fazer.
O FC Porto
é, para além da música, o seu outro grande amor. Lopetegui vai
conseguir roubar o campeonato a Jesus ou será mais um ano sem
títulos no Dragão?
Prognósticos só no fim do jogo...
Gosto deste Porto e como bom adepto, acredito até ao fim do
jogo!
Nuno Dias da Silva
Jornalista