Entrevista

António Manuel Ribeiro, vocalista dos UHF em entrevista
Veterano da corrida

UHF - Foto2.jpgAntónio Manuel Ribeiro é o vocalista e fundador da mítica banda portuguesa UHF, e, actualmente, o único elemento da formação inicial. Os autores de músicas tão emblemáticas como Cavalos de Corrida ou Rua do Carmo vão lançar um novo álbum de originais no final de Abril. Com uma carreira de mais de 30 anos, o músico fala da banda e da autenticidade do rock que ultrapassa gerações.

É um cidadão muito preocupado com a crise económica que atravessa o país?

Bastante. Há muitos anos atrás, quando comprava os semanários deitava fora o suplemento de economia. Agora é o primeiro que leio. Interessa-me muito os debates, saber para onde vamos, como é que este país vai sair deste lodo em que se deixou enterrar. Apesar de tudo aquilo que se discute todos os dias, que se grita, dos queixumes, - quase todos com razão, - Portugal tem de ter futuro. As nações não fecham a porta.

Já são mais de três décadas de carreira, e é o único elemento da formação original da banda. Depois de tantos anos de estrada, de tantos discos, aquele espírito rock agressivo continua no seio do grupo?

Claro que sim. Estar no rock é uma atitude, é uma forma de afrontar a realidade e até de a revelar. Nós ouvimos as canções que estão misturadas no novo disco e há ali de tudo, nomeadamente aquele som que nos define. Mas há outros campos da música, porque ao fim deste tempo, - eu como compositor e nós como grupo -, gostamos de ir a outros horizontes, a outros continentes musicais. É dessa riqueza que se faz também a nossa maturidade. Ao fim deste tempo todo, não podemos ser máquinas de debitar o mesmo tipo de canções, o mesmo formato. Mas somos sempre um grupo rock.

O próximo disco está no forno, em breve vai sair para as lojas. A sonoridade vai apresentar algumas diferenças dos outros discos anteriores?

Há sempre diferença. Há sempre evolução. Hoje em dia quando chegamos a estúdio ficamos espantados. Há uma série de novas tecnologias que apareceram e é com elas que temos de começar a trabalhar. Adquirimos sempre o som que está a acontecer neste momento. Mas depois temos de vestir novas peles, somos como a cobra. Apesar de largarmos a pele todos os anos, ficamos com a mesma identidade. Evoluímos, mas não perdemos a alma. É isso que acontece neste disco. Se bem que há um lado poético, que talvez deixe muita gente atenta.

Continua a haver um grande espírito criativo, sempre a inovar, mas com o selo rock?

UHF - Foto 3.jpgÉ verdade. Mas como eu disse, este é um disco diversificado. Só vai ter 10 canções. Trabalhamos com 20 e tal canções, gravámos 16, mas agora só vão sair 10. O novo disco é mais coeso. É o melhor do melhor. Mas há um cheiro de Lisboa. Não vou dizer que é um cheiro de fado, mas há um lado de Lisboa antiga. Por exemplo, há uma longa canção declamada.

Já está definido o timming para a saída do single, e do álbum chegar às lojas?

O single é discutido com a promoção, pois cada um de nós tem uma opinião. Estamos à espera que o departamento de promoção faça a separação das águas. Mas o disco teve de ser adiado, por razões de trabalho de estúdio. Era para sair no final de Março, sairá nos finais de Abril.

Há muita ansiedade por parte dos fãs da banda em conhecer as novas músicas?

Basta ir ao site UHFãs e vê-se isso. Começamos a escrever um diário de bordo, o dia-a-dia em estúdio. Fizemo-lo, também, porque antigamente tudo era escondido. Nesta era "facebookiana" não vale a pena esconder nada. Nós acabamos de dar um concerto passados cinco minutos estamos no Youtube, com momentos desse espectáculo. Portanto, começamos a revelar como se trabalha dentro de um estúdio. Isso suscitou ainda mais o debate e é esse debate que nós também temos seguido. As pessoas estão ansiosas e nós também queremos ver a criança nascer, mas temos de ter muito cuidado.

Cada disco, cada gravação, cada composição para si é sempre uma nova aventura?

É uma nova aventura. Sou uma pessoa muito feliz quando escrevo uma canção que me realize. É dos grandes momentos da minha vida quando, sozinho, em casa, um papel, um poema, e os acordes da guitarra e de repente há uma canção, e essa canção me toca. Não vou dizer que é o melhor momento da minha vida, mas é um dos melhores momentos da minha vida.

As ideias podem surgir a qualquer momento, até de coisas banais?

Tudo são sinais para a escrita. Há coisas curiosas, por exemplo, o filme que ando a adiar ver. De repente lá meto o DVD e vou ver o filme e pode surgir aí. Parece que andávamos a negar a situação. São os clicks. Funcionam de qualquer forma, não faço ideia como funcionam. De vez em quando é isso que me motiva e me suscita uma nova canção.

No actual panorama português, o rock tem muita popularidade ou tem vindo a perder adeptos para outros estilos musicais?

UHF - Foto1.jpgA confluência dos vários estilos faz a riqueza de uma música, neste caso da música portuguesa. A música rock nunca perde a sua actualidade. Poderá haver momentos em que outras ondas musicais tomam o primeiro espaço, mas depois ela regressa. Porque é muito autêntica. Enquanto a música rock reflectir a realidade constante que estamos a viver, isto na questão de letras e também de actualidade musical - estamos bem. Quando hoje agarramos num disco dos Beatles, que gravaram canções em 1963, a pomos a tocar e continua a ser um som que poderia ser feito por outro grupo qualquer, significa que muitos alguns estilos musicais passam por cima das épocas, das eras e até das modas.

No caso dos UHF são vários temas intemporais Rua do Carmo, Cavalos de Corrida, clássicos da produção nacional. Qual é sensação de ouvir um desses singles, passados muitos anos, e o tema ser completamente actual?

Vou responder com três momentos vividos numa semana, a ritmo de corrida - tinha de ser - : primeiro o Contra Poder pediu-me para fazer uma versão dos Cavalos de Corrida ajeitada a não sei que personagem; depois a rádio Comercial pediu-me para fazermos uma versão com eles dos Cavalos de Corrida, com outro nome; a seguir apareço no Sábado há Luta, com uma versão da Rua do Carmo, que se chama Largo do Rato. Isto revela que as canções têm mais do que aquilo que lhes demos na altura. Também pensei que as canções ficavam por ali. Era preciso escrever mais. Não só porque havia uma carreira, queríamos ser músicos, mas porque provavelmente as canções iam morrer. Mas não morreram. Há canções que passam a sua época de nascimento e se tornam intemporais. Não sei qual é o fenómeno. Escrevo muito sobre os portugueses e, às vezes parece que Portugal não muda. O que é pena. Pois as canções poderiam deixar de ter esta actualidade.

Como músico veterano, como vê a actualidade da música portuguesa?

Fazem-se coisas muitos boas. Mas há muito lixo na música portuguesa, que chamamos "música portuguesa" nem sei porquê. São estereótipos feitos "à manivela" - manivela não, porque hoje em dia é tudo digital, já não há o analógico da manivela - é um bocado isso. Também há coisas muito boas que se fazem e são o resultado de uma autenticidade musical. Nas festas do interior, por onde ando, nos espectáculos de Verão há coisas perfeitamente insuportáveis. São "músicas a metro" que estragam a nossa identidade musical. A música portuguesa é outra coisa, tem grandes valores e grandes potencialidades. Infelizmente, no outro lado, existe uma maré cheia de coisas muito inúteis.

As novas gerações podem alterar isso e a qualidade vir ao de cima?

Acho natural que sim, pois as pessoas tornam-se cada vez mais exigentes. Muitas vezes é o facilitismo que leva a música para este beco sem saída. Somos um país que por vezes gosta de imitar, mas damos relevo a um tipo de "música a metro". Essa música existe noutros países, mas não tem nenhuma relevância. Em Portugal, infelizmente, tem.

 
 
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