O novo álbum já toca Portugal
Desassossego de João Pedro Pais
O primeiro single "Havemos de lá chegar" tem um
videoclip bastante bem trabalhado, com uma excelente ideia, que de
uma forma transversal apanha um pouco do que é a sociedade em
Portugal. Há também a mensagem positiva "Havemos de lá chegar",
numa altura de crise para Portugal?
É a primeira vez que tenho a
ousadia de pôr duas mulheres a trocar beijos e carícias num vídeo.
Independentemente da opção sexual de cada um, somos todos iguais e
todos diferentes, fazemos parte da sociedade e respiramos o mesmo
ar.
Se alguém escolhe um percurso de
vida diferente, não se deve afastar. Fiz o convite às pessoas que
entrassem no vídeo e mostrassem aquilo que são. Acho que ficou
interessante, a mensagem passou. E minha banda e alguns amigos
também entram no videoclip.
O trabalho
mais recente chama-se Desassossego. Vive em Desassossego com o
estado atual da sociedade e do país?
Todos vivemos, ninguém fica imune.
E ninguém deveria ficar indiferente. Adivinhava-se o que se iria
passar. Há seis ou sete anos atrás, pessoas com quem me dou,
diziam-me que isto ia acontecer. Isto favorece muito uns e
prejudica muito outros. Infelizmente, prejudica aqueles que nada,
ou quase nada, têm. É preciso haver uma mudança. Portugal não manda
em Portugal as ordens vêm de fora, de quem tem mais poder,
esquecendo que há muita gente a passar mal.
Desassossego é um álbum de
continuidade, a sonoridade mantém mais ou menos a linha dos
anteriores registos. Não é um músico de grandes ruturas...
É um álbum que se aproxima mais
daquilo que sou ao vivo. É mais folk em algumas coisas despidas, só
eu e a viola acústica. Mas é claro que não posso fugir àquilo que
sou, à minha identidade pessoal. Há coisas novas que não tinha
feito até então. Tentei experimentar outras sonoridades, não
fugindo àquilo que sou.
Este
registo já tem alguns meses, são dois singles com muito destaque
radiofónico. Em termos de balanço, está satisfeito com o feedback
alcançado até à altura?
Estou contente. Nós esperamos
sempre que as coisas resultem, cheguem às pessoas, mas dependemos
de muita coisa, até da própria maneira de trabalhar das rádios.
Umas rádios identificam-se mais com o trabalho, do que outras. Isso
é natural. As pessoas sabem quem é que canta. As canções têm um
cunho muito pessoal. Há rádios que estão preparadas só para receber
um estilo de sonoridade, outras passam todos os tipos de
sonoridade.
Continua a
cantar em português. A música cantada na língua de Camões está de
boa saúde e recomenda-se?
Sim. Mas é muito difícil cantar em português. Tenho
o cuidado de tentar não me repetir naquilo que escrevo, uma vez que
não sou poeta, nem um grande escritor. Escrevo as minhas coisas e
aquilo com que me identifico. Tenho é muita facilidade em fazer
melodias.
A escrever tenho o cuidado de ver
se já contei a mesma história de outra maneira, noutra canção.
Então, tenho de ler mais, de me informar, ouvir outras canções e
ver o que os outros cantautores dizem, seja em inglês, francês ou
espanhol.
Dizer em português tem de ser "bem
dito", a palavra assim o exige. Por exemplo, numa música dizer
"amo-te" é muito quadrado, o "te" estraga quase tudo. "I love you"
é mais redondo. Com o sotaque brasileiro, "te amo" também é mais
redondo do que o "amo-te".
O processo
criativo das letras é sempre uma aventura. O criar da forma que se
pretende, para chegar à história pretendida?
Sim. É muito difícil porque sou
muito perfeccionista. Tenho uma forma cada vez mais equilibrada de
escrever e não gosto de alguma coisa só para preencher uma melodia.
Tem de fazer sentido, de haver uma história. Tenho de falar de uma
maneira que as pessoas se identifiquem. O tema "Isto do amor" chega
a muita gente, porque as pessoas já viveram aquele momento e aquela
história.
Na internet
cada vez ganham mais terreno as plataformas de streaming. Na sua
opinião são benéficas ou prejudicam os artistas?
Em alguns casos são benéficas
porque divulgam a música; o lado prejudicial é a não defensa dos
direitos de autor.
Para alguns cantautores essas
plataformas funcionam bem. Já cheguei a receber no facebook
mensagens de lugares onde não pensei que se ouvisse a minha música.
Recordo que alguém colocou no Youtube um vídeo meu a cantar na
China. Um português, dentro de um táxi, diz ao taxista que o músico
que está a cantar na rádio é português. Em que rádio é que estará a
tocar a música.
Da Nova Zelândia e da Austrália
mandam mensagens a dizer que ouviram as minhas canções e gostaram .
É a parte boa da divulgação da música. Poder ouvir quando e onde se
quer ouvir. O problema é o download. Mas hoje em dia também há
muita gente que não tem acesso à música, devido à crise mundial.
Têm outras prioridades que não são comprar música.