Newsletter
Mensagem

Newsletter

Director Fundador: João Ruivo Director: João Carrega Ano XXI Nº248  Outubro 2018
FacebookTwitter

Entrevista

O novo álbum já toca Portugal
Desassossego de João Pedro Pais

pedro.jpgO primeiro single "Havemos de lá chegar" tem um videoclip bastante bem trabalhado, com uma excelente ideia, que de uma forma transversal apanha um pouco do que é a sociedade em Portugal. Há também a mensagem positiva "Havemos de lá chegar", numa altura de crise para Portugal?

É a primeira vez que tenho a ousadia de pôr duas mulheres a trocar beijos e carícias num vídeo. Independentemente da opção sexual de cada um, somos todos iguais e todos diferentes, fazemos parte da sociedade e respiramos o mesmo ar.

Se alguém escolhe um percurso de vida diferente, não se deve afastar. Fiz o convite às pessoas que entrassem no vídeo e mostrassem aquilo que são. Acho que ficou interessante, a mensagem passou. E minha banda e alguns amigos também entram no videoclip.

O trabalho mais recente chama-se Desassossego. Vive em Desassossego com o estado atual da sociedade e do país?

Todos vivemos, ninguém fica imune. E ninguém deveria ficar indiferente. Adivinhava-se o que se iria passar. Há seis ou sete anos atrás, pessoas com quem me dou, diziam-me que isto ia acontecer. Isto favorece muito uns e prejudica muito outros. Infelizmente, prejudica aqueles que nada, ou quase nada, têm. É preciso haver uma mudança. Portugal não manda em Portugal as ordens vêm de fora, de quem tem mais poder, esquecendo que há muita gente a passar mal.

Desassossego é um álbum de continuidade, a sonoridade mantém mais ou menos a linha dos anteriores registos. Não é um músico de grandes ruturas...



É um álbum que se aproxima mais daquilo que sou ao vivo. É mais folk em algumas coisas despidas, só eu e a viola acústica. Mas é claro que não posso fugir àquilo que sou, à minha identidade pessoal. Há coisas novas que não tinha feito até então. Tentei experimentar outras sonoridades, não fugindo àquilo que sou.

Este registo já tem alguns meses, são dois singles com muito destaque radiofónico. Em termos de balanço, está satisfeito com o feedback alcançado até à altura?

Estou contente. Nós esperamos sempre que as coisas resultem, cheguem às pessoas, mas dependemos de muita coisa, até da própria maneira de trabalhar das rádios. Umas rádios identificam-se mais com o trabalho, do que outras. Isso é natural. As pessoas sabem quem é que canta. As canções têm um cunho muito pessoal. Há rádios que estão preparadas só para receber um estilo de sonoridade, outras passam todos os tipos de sonoridade.

Continua a cantar em português. A música cantada na língua de Camões está de boa saúde e recomenda-se?

pedro2.jpgSim. Mas é muito difícil cantar em português. Tenho o cuidado de tentar não me repetir naquilo que escrevo, uma vez que não sou poeta, nem um grande escritor. Escrevo as minhas coisas e aquilo com que me identifico. Tenho é muita facilidade em fazer melodias.

A escrever tenho o cuidado de ver se já contei a mesma história de outra maneira, noutra canção. Então, tenho de ler mais, de me informar, ouvir outras canções e ver o que os outros cantautores dizem, seja em inglês, francês ou espanhol.

Dizer em português tem de ser "bem dito", a palavra assim o exige. Por exemplo, numa música dizer "amo-te" é muito quadrado, o "te" estraga quase tudo. "I love you" é mais redondo. Com o sotaque brasileiro, "te amo" também é mais redondo do que o "amo-te".

O processo criativo das letras é sempre uma aventura. O criar da forma que se pretende, para chegar à história pretendida?

Sim. É muito difícil porque sou muito perfeccionista. Tenho uma forma cada vez mais equilibrada de escrever e não gosto de alguma coisa só para preencher uma melodia. Tem de fazer sentido, de haver uma história. Tenho de falar de uma maneira que as pessoas se identifiquem. O tema "Isto do amor" chega a muita gente, porque as pessoas já viveram aquele momento e aquela história.

Na internet cada vez ganham mais terreno as plataformas de streaming. Na sua opinião são benéficas ou prejudicam os artistas?

Em alguns casos são benéficas porque divulgam a música; o lado prejudicial é a não defensa dos direitos de autor.

Para alguns cantautores essas plataformas funcionam bem. Já cheguei a receber no facebook mensagens de lugares onde não pensei que se ouvisse a minha música. Recordo que alguém colocou no Youtube um vídeo meu a cantar na China. Um português, dentro de um táxi, diz ao taxista que o músico que está a cantar na rádio é português. Em que rádio é que estará a tocar a música.

Da Nova Zelândia e da Austrália mandam mensagens a dizer que ouviram as minhas canções e gostaram . É a parte boa da divulgação da música. Poder ouvir quando e onde se quer ouvir. O problema é o download. Mas hoje em dia também há muita gente que não tem acesso à música, devido à crise mundial. Têm outras prioridades que não são comprar música.