Entrevista

Spinning: do B.B. King ao Magazine

DSC_7578.jpgO grupo Spinning foi o vencedor do concurso internacional de Bandas de Garagem "A tua música dá um filme", promovido pelo Ensino Magazine. Fundada em 2004, tem já no seu palmarés atuações e prémios importantes, casos do encerramento do concerto do "rei do Blues" B.B.King em Portugal (Sabrosa), em 2010, dos primeiros lugares nos concursos Música Pop-Rock (Grândola) e Music'Arte (Póvoa do Lanhoso), sendo ainda finalistas do XVII Festival de Música Moderna de Corroios e do Rockastrus (Esposende). Composta por Pedro Costa Paulo "Pepe" (voz principal e guitarra), Filipe Magalhães Ferreira (piano, sintetizadores e voz), Daniel Branco (bateria) e Ricardo Bento "César" (baixo), a banda atua dia 28 de abril na Exponor, no Porto, durante a entrega do prémio Ensino Magazine.

A entrevista, respondida por e-mail, através de Pepe e Filipe Magalhães Ferreira aqui fica.

Qual a importância do prémio obtido no concurso Ensino Magazine?

Para a banda, concorrer para este concurso implicava essencialmente "passar das palavras à ação". Isto é, já existia uma ideia "apalavrada" para fazer um vídeo com alguma qualidade que servisse de promoção da banda, e a meta "Ensino Magazine" veio acelerar esse processo. De imediato, entrou-se em contacto com Hugo Santos, Margarida Pinto, Joana Garcia e Nuno Soares, estudantes na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) da área da Comunicação e Multimédia. Eles gostaram da ideia e lançamos mãos à obra. Para nós, o vídeo (e agora o prémio e sua divulgação) serve essencialmente para promoção da banda nas redes sociais e restantes meios de comunicação. Para a equipa "multimédia", e para além do evidente acrescento em termos de currículo, serviu para poderem aplicar e aperfeiçoar os conhecimentos que vão adquirindo em termos académicos. O resultado foi bom e já pensamos em cooperar em mais projectos deste género.

Como se caracterizam os Spinning?

O mote dos Spinning é o "malta é preciso dedicação". Vemos a música como um hobby saudável, porque em Portugal viver da música é algo que é ainda uma miragem e depende muito de interesses instalados, mas procuramos sempre ir para o palco com um produto bastante consistente e profissional. O nosso som apelidamo-lo jucosamente de "Rock Spinning", porque temos algumas dificuldades em definir, por palavras, o "nosso som". Em termos genéricos, estamos a falar de um rock com riffs de guitarra musculados, refrões "orelhudos", algumas orquestrações e "efeitos" de guitarra e sintetizadores que resultam em atmosferas diferenciadas. São frequentes os apontamentos étnicos, progressivos e diria até "glamour" que depressa transitam para partes mais agressivas do "punk".

O inglês predomina nas vossas músicas. Porquê esta opção?

No início, todos queriamos encarnar num "David Gilmour" ou "James Hetfield". A opção inicial pelo inglês acabava portanto por ser o reflexo da rebeldia e influências dos miúdos que estão a começar. Com o passar dos anos, e outra maturidade, fomos experimentando outros caminhos e também se experimentou o português. No entanto, a composição em inglês demonstrou-se mais natural para o nosso principal letrista - "Pepe" - e o caminho acabou por assentar essencialmente no inglês. Esta decisão não foi portanto o resultado de algum preconceito ou complexo da nossa parte. E pergunto eu - porque é que haveríamos de ter algum complexo se a nossa língua é a 5a mais falada no mundo?

Já lançaram trabalhos discográficos, qual o feedback que tiveram do público?

capa.jpgJá lançamos dois EP's. "The Lost", em 2004, enquanto "Spinning Shalk" e "Too Late", em 2011. A realidade alterou-se bastante, de 2004 para cá. Hoje em dia, o suporte físico, seja no formato LP, EP ou single, serve essencialmente para as bandas sistematizarem em algo "palpável" o trabalho que vão apresentando em palco. O trabalho de promoção, quer junto dos promotores, quer junto do "grande público" faz-se essencialmente através das redes sociais, pelo que o suporte físico tornou-se secundário. No entanto, continuamos a apostar em editar, com alguma regularidade, no formato físico, porque é a forma de sistematizarmos o trabalho que vamos desenvolvendo e, pelo menos para nós, ainda é uma sensação especial a de "desembrulhar" um novo vinil ou um digipak dos "Tomahawk" com letras realçadas em talha dourada. A "miudagem" actual talvez já não dê o devido valor, mas para nós, que ainda passamos pela época do vinil (final da década de 80) e pelo boom do CD (década de 90), era algo que dávamos muito valor quando éramos miúdos - a altura de podermos ir à loja e comprar o novo álbum daquela banda que seguíamos atentamente.

O feedback foi variado e, naturalmente, as opiniões de quem está "out of the box" são sempre bem vindas. No entanto, deixo aqui uma reflexão. Se a melhor música para cada pessoa é a melhor música que cada pessoa gosta se, um artista se limitasse a fazer apenas aquilo que os "outros" gostam ou não procurasse, em primeiro lugar, seguir o seu instinto então a arte não aconteceria. Viveríamos todos como cópias de sons e imagens seculares daquilo que outros já haviam feito.

O facto de serem uma banda do interior do país criou-vos algum tipo de dificuldade para chegarem aos principais palcos nacionais e internacionais?

Os municípios e diversas entidades do eixo Vila Real - Peso da Régua - Lamego têm apostado fortemente na cultura, que se reflecte em iniciativas em diversos quadrantes. O Festival Rock Nordeste é uma das maiores montras nacionais para as bandas de garagem e existem vários espaços nocturnos na região a apostar numa programação fortemente baseada nas bandas de garagem e no espectro "underground". Ao longo dos anos, não apenas os Spinning, mas também os Thanatoschizo, os Thee Orakle e os Basic Black conseguiram projectar-se "para lá do Marão", mas inicialmente a tarefa não era fácil (nem ainda o é). Os Spinning apostaram muito nos concursos de música moderna o que já nos possibilitou pisar palcos de "norte a sul" do país. Além da experiência em palco, o "andar na estrada" serviu de promoção e, de vez em quando, surgem oportunidades que são o fruto desse esforço - a oportunidade de encerrar o concerto de B.B. King em Sabrosa, em 2010, é exemplo disso mesmo.

Hoje a música circula na internet e em canais virtuais. Isso constitui uma oportunidade?

Se é verdade que a excessiva facilidade de circulação de informação criou graves problemas à indústria discográfica, também é verdade que permitiu a "miúdos" e "graúdos", "ricos" e "pobres" terem acesso a produtos culturais que de outra forma não o teriam conseguido.

Porquê o nome Spinning?

O nome Spinning deriva do nome do projecto embrionário - Spinning Shalk - que teve uma história engraçada associada na sua escolha. Em 2003, ainda sem nome, numa fase embrionária, decidimos que cada elemento da banda deveria dar sugestões para se decidir pela escolha de um nome para a banda. Havia elementos com páginas cheias de sugestões e iniciamos a discussão até que, passado quase uma hora, um dos elementos que ainda não tinha sugerido nada atira "Spinning Shalk" e toda a gente gostou de como soou e assim ficou. A mudança para Spinning deriva do feedback ao primeiro nome. Muitas vezes, as pessoas questionavam "Spinning quê?". Fartos de ouvir más pronuncias e erros frequentes (risos), em 2009, já de "cara lavada", "som amadurecido" e algumas alterações na formação decidimos que Spinning seria mais sonante e de mais fácil percepção.

Estão previstos novos trabalhos discográficos? Para quando?

Ainda este ano, contamos editar um EP. Pela primeira vez, inteiramente produzido pela banda, no próprio estúdio.

E concertos?

Decidimos que esta seria a melhor altura para "abrandar" na estrada e concentrar-nos em estúdio. Não obstante o facto dos três últimos anos terem sido bastante proveitosos a nível de concertos, um problema começava a surgir ultimamente - a quantidade de pessoas que vinham ter connosco no final dos concertos, para pedir um cd e nós sem um suporte físico, com gravações que resumissem o trabalho actual da banda. Decidiu-se, por fim, dar prioridade à gravação de novo material. Por esta altura, foi também feita a integração, em pleno, de um novo elemento na banda - o "César". Desta feita, concertos só lá para setembro, com o lançamento do EP .

Quais os objetivos futuros da banda?

Como já referimos, estamos em estúdio a produzir um novo EP, que contamos editar no final do verão. Após a conclusão da componente audio, a meta imediatamente seguinte será trabalhar a componente imagem. Em cooperação com o Hugo, Margarida, Joana e toda a malta que realizou o video de "Melodramatic", temos um projecto, já em fase avançada, para a rodagem de um novo videoclip num formato menos habitual da generalidade dos vídeos de bandas. Na realidade, este vídeo será mais uma curta-metragem do que propriamente um videoclip. Assenta totalmente nas imagens de um drama amoroso com dezenas de personagens, num enredo inteiramente criado de raiz.

Contem com novidades só lá para setembro. Até lá, e em nome dos Spinning, despedimo-nos com um forte "Hell Yeah".

Margarida Pinto e Joana Garcia
 
 
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